www.sobape.com.br Nº 42 | OUTUBRO | NOVEMBRO | DEZEMBRO 2007

“Podemos dizer que as alergias são doenças multifatoriais”

O crescente número de pessoas com alergia alimentar e os cuidados que pais e médicos devem ter com estes
pacientes é um dos assuntos tratados pela presidente do Departamento de Alergologia Imunologia e Reumatologia
da Sobape, Dra. Hermila Guedes. Na entrevista concedida ao Sobape Notícias, a médica chama a atenção para a
importância do aleitamento materno e do diagnóstico precoce. Hermila Guedes*

Sobape Notícias - As alergias alimentares estão mais freqüentes ultimamente?
Dra. Hermila Guedes - As Alergias alimentares (AA) são identificadas em um número cada vez maior de pacientes, sejam crianças ou adultos. Provavelmente, esse aumento tem ocorrido porque os médicos estão mais atentos às alterações que indicam suspeita diagnóstica.

Sobape - Quais as manifestações clínicas da AA?
Dra. Hermila - As manifestações cutâneas e gastrointestinais são as mais freqüentes e incluem esofagite, gastrite e enterocolite eosinofílicas alérgicas, enteropatia induzida pelo leite de vaca, proctocolite alérgica, doença celíaca, dermatite herpetiforme, urticária e angioedema agudos, dermatite atópica. Outras manifestações são anafilaxia (inclusive associada ao exercício - ocorre quando há prática de exercício físico
duas a quatro horas após a ingestão do alimento), síndrome oral alérgica, Síndrome de Heiner (hemossiderose pulmonar), rinite alérgica e asma (raramente ocorre por AA. Quando isso acontece, sempre está associada a uma outra manifestação).

Sobape - O que pode causar alergia alimentar?
Dra. Hermila - Podemos dizer que as alergias são doenças multifatoriais. A herança genética é muito importante - determina a capacidade do indivíduo de apresentar manifestações clínicas de alergia. A chamada “atopia” é justamente a capacidade de o indivíduo ser alérgico, adquirida pela herança, enquanto a alergia é a manifestação clínica da atopia. Então, em um indivíduo atópico, ou seja, com capacidade de desenvolver
alergias, a ocorrência de fatores de risco para AA significa uma maior probabilidade de desenvolver esse
tipo de alergia. Os seguintes fatores de risco para AA, em indivíduos susceptíveis, foram apontados no último
consenso sobre o assunto, realizado por entidades internacionais : falta de amamentação ou desmame precoce, introdução precoce de alimentos heterólogos, Tabagismo passivo, falta de informação sobre a doença
alérgica1. Um consenso brasileiro sobre o assunto foi organizado, recentemente, pelos departamentos
de Alergia e Imunologia, Gastroenterologia e Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, juntamente com a
Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (ASBAI) e deverá ser divulgado em breve. Em nosso
meio, os alimentos mais envolvidos são leite de vaca, ovo, trigo, soja e pescados.

Sobape - E quais seriam esses indivíduos suscetíveis?
Dra. Hermila - Como não existem testes que identifiquem um recém-nascido de risco, a estratégia de prevenção de alergia alimentar recomendada pelas comissões americana e européia consiste na identificação de crianças com história familiar de atopia (independente do órgão-alvo).

Sobape - Qual a conduta diante de um recémnascido com risco para AA?
Dra Hermila - Recomenda-se a observação de cuidados como o aleitamento materno exclusivo por período prolongado (a referência a esse tempo mínimo varia, na literatura, entre 4 e 6 meses). Naquelas crianças impossibilitadas de receber o leite materno, são recomendadas fórmulas especiais, hipoalergênicas, constituídas por hidrolisados protéicos, já disponibilizados no Brasil, embora de alto custo. Há meios de se conseguir que o poder público arque com o custo dessas fórmulas. Um grupo de pais e profissionais de saúde tem trabalhado nisso. O objetivo é postergar a introdução de potenciais alérgenos na alimentação da criança de risco, mas o ideal é que toda criança seja alimentada exclusivamente ao seio pelo maior tempo possível.

Sobape - Os alimentos considerados alergênicos devem ser evitados pelas gestantes?
Dra. Hermila - Há estudos mostrando a presença no feto e no recém-nascido de IgE específica para
determinados alimentos. Mas esse fato não foi, necessariamente, associado ao desenvolvimento posterior
de AA. Também não se conseguiu comprovar que as mães que utilizam dieta hipoalergênica terão filhos
sem alergia. É um assunto controverso, mas não há recomendação dos consensos publicados até o momento
para que sejam adotadas medidas desse tipo, com exceção à indicação de suspensão do amendoim
na dieta de gestantes e nutrizes americanas (a manteiga de amendoim é largamente utilizada nos EUA), por
ser esse alimento o mais associado à alergia alimentar nos Estados Unidos da América, incluindo manifestações
de anafilaxia. Foi considerado o fato de que o amendoim não é um alimento essencial à dieta, podendo
ser excluído sem prejuízo nutricional para a gestante.

Sobape - O uso de soja como alimentação preventiva nas crianças de risco é válido?
Dra. Hermila - Os comitês europeus concordam que existe evidência científica para recomendar a soja como prevenção primária de alergias alimentares em crianças de risco. Contudo, estudos prospectivos randomizados para avaliar o efeito da exclusão de soja da alimentação em lactentes de famílias atópicas não demonstraram qualquer efeito preventivo sobre alergias alimentares ou dermatite atópica.

Sobape - O que pode ser feito para o tratamento de alergias alimentares?
Dra. Hermila - Os alimentos reconhecidamente indutores da sintomatologia devem ser evitados para a criança e para a mãe, se ela estiver amamentando. O aleitamento materno exclusivo deve ser incentivado nos lactentes. O uso de fórmulas deve ser orientado nos casos em que a amamentação não é possível. Sintomáticos podem ser prescritos. Novidades têm surgido, mas ainda sem um embasamento científico consensual.

Sobape - O que recomendar aos pediatras?
Dra. Hermila - O diagnóstico precoce permite instituição de estratégias preventivas. Sugerimos aos neonatologistas que, uma vez identificada uma história familiar de alergia, o recém-nascido seja visto como
bebê de “risco para alergias” e, como tal, seus responsáveis sejam informados sobre isso e alertados para a
importância do aleitamento materno exclusivo, para a exclusão de alérgenos ambientais (como fumo, poeira,
etc). Isso será útil não apenas para AA, mas para qualquer tipo de alergia. Quanto ao pediatra em geral,
será importante estar alerta para sinais de doenças atópicas. Sempre que achar necessário, poderá recorrer
aos especialistas, os quais deverão fazer acompanhamento conjunto. O especialista terá como função
confirmar a ocorrência de alergia e fornecer orientações específicas, tanto aos familiares como ao pediatra
assistente. Os gastropediatras têm um papel muito importante quando as manifestações de alergia alimentar
têm o sistema digestivo como alvo. Esses especialistas fazem o diagnóstico diferencial de AA com síndromes
disabsortivas, com diferentes causas de hiperêmese, incluindo causas diversas de refluxo gastroesfágico.

* Hermila Tavares Vilar Guedes é doutora em Medicina e Saúde pela UFBA. É presidente do Departamento de Alergologia Imunologia e Reumatologia da Sobape e membro do Departamento de Alergia e Imunologia da SBP.

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